Delírio em Las Vedras, Edgar Pêra

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Que privilégio ter sido convidada a assistir à estreia do filme de Edgar Pêra!

Ficha técnica:

Título original: Delírio em Las Vedras
Realização: Edgar Pêra
Elenco: Marina Albuquerque, José Raposo, Sofia Ribeiro, Albano Jerónimo, Miguel Borges
POR, 2016, Cores e P/B, 80′

“Deixem-se de Medras
Carnaval em Torres Vedras!”

No último filme de Edgar Pêra, a tela e a sala de cinema – dado que o filme é em 3D – é invadida por simulacros de autênticos repórteres de todos os tons e sons, de todas as utopias e distopias: punks, anarquistas, hippies, sérios e pouco sérios, irascíveis e bem humorados, acompanham os foliões no Carnaval de Torres Vedras.
O cineasta desvela e denuncia o ridículo, o grotesco, como parte integrante da essência do humano. Convoca os excessos, os estados líricos – intensos e profundos segundo o filósofo Cioran – , e com eles todos os fantasmas.
Reina o Desejo. Impera o princípio de prazer. Celebra-se a Carne como libertação da alma: “Aproveitar os deleites da carne antes da Quaresma”. Inversão edgariana do pressuposto platónico.
António Preto chamou-lhe “terrorismo estético”. Gosto. O espectador é violentado, no sentido em que lhe é impossível distanciar-se ou não tomar partido. O kitsch pode sair à rua sem ser censurado. Os homens podem assumir as matrafonas que reprimem todos os dias dentro de si. Inversão de géneros.
Há padres que vagueiam na rua com os pénis na mão, animados pelo fim da repressão. Revolução adormecida na sátira divertida?
Curiosamente, Terry Gilliam assina uma comédia, datada de 1998, sob o nome de “Medo e delírio em Las Vegas”. E se no filme de Gilliam os estados hiperbolizados são corporificados, entre outros actores, por Johnny Depp, Benicio Del Toro, Cameron Diaz e Harry Dean Stanto; Edgar Pêra cativou “um bando” fantástico que na realidade nunca esteve “à parte”, entre os quais destacaria a interpretação sublime de Nuno Melo, assessorado por Rui Melo, Marina Albuquerque, José Raposo, Sofia Monteiro, Jorge Prendas Susana Mendes, Miguel Borges, Marco Paiva, Albano Jerónimo, Miguel Pereira ,Joana Freches Duque, Débora Coelho, João Sodré.
Os planos devaneiam do geral ao pormenor, ou seja, dos foliões- formigas que se amontoam, num autêntico “Carnaval des animaux ” (Camille Saint-Saëns) aos detalhes cirurgicamente captados como o do corno errante ou itinerante. O ritmo oscila entre o frenético, enquanto companheiro da eufórica festa e o cansado, lento, sonolento, aquele que de pernas entreabertas no chão da calçada mostra o fim “dolorento”.
Uma palavra, também, para a música inebriante e que se vai adentrando no corpo e na mente do espectador, da autoria de Jorge Prendas.
Filmar de uma forma, artística, uma matéria como mais ninguém ousou fazê-lo. Filmar carnavalescamente o Carnaval é honrar a matéria filmada. É o pacto interior que o artista Edgar Pêra celebrou consigo mesmo. Inversão, comunhão e potenciação de olhares.
Cinema com máscaras e sobre máscaras, numa espécie de transformismo visual que coloca o realizador no epicentro da “Arte impura”.
Diverti-me desmesuradamente.
Eis uma festa Dionisíaca. Afrodisíaca. Na contemporaneidade. Impossível permanecer indiferente e não aceitar o chamamento do “Delírio em las Vedras” e o desafio de ser Delirante ou Diferente. Inversão derradeira, a da normalidade.

Elsa Cerqueira

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“Nota Marginal”: Esta nova rubrica “outras cinefilias” é constituída por outros amores – amores cinéfilos – e só aparentemente é que não se relaciona com o Plano Nacional de Cinema.
Dado que consubstancia, para mim, uma prática preciosa e insubstituível na formação e elevação da minha sensibilidade estética e que consiste em ver filmes nos mais variados contextos, como por exemplo, em festivais, encontros, observatórios, mostras, retrospetivas e ouvir os seus realizadores. Única forma para aprender sobre Cinema. E um privilégio.

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