XX Festival de Cinema Luso-Brasileiro

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Estive nos dias 10 e 11 em Sta Maria da Feira, no Festival de Cinema Luso-Brasileiro. Foi a primeira vez que me desloquei a este festival, a convite de uma grande Amiga, a atriz Adelaide Teixeira.

O filme de João Monteiro “Nos interstícios da realidade – o cinema de António de Macedo”, 2016, foi o que vi de melhor no festival.

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No filme, ouve-se António de Macedo dizer:  “Procurei sempre tentar inovar, fazer qualquer coisa que movimentasse, que agitasse este país em termos cinematográficos, e nunca tive resposta positiva”.

Fernando Lopes assume com frontalidade que “Entre críticos e cineastas, tenho vergonha de o dizer, quiseram apagá-lo da história do cinema português.”

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Por um lado, o filme “ressuscita” um dos fundadores do Novo Cinema Português, nutrindo-se de excertos de filmes, imagens de arquivo e entrevistas  a João Salaviza, Alberto Seixas Santos,  António-Pedro Vasconcelos,  Susana de Sousa Dias , o produtor António da Cunha Telles, o crítico de cinema Jorge Leitão Ramos e o ator Sinde Filipe; por outro, coloca  o dedo na vileza humana porque o esquecimento intencional, partilhado e planeado relembra-me que a inveja, a ininteligibilidade e a intolerância ao diferente reina(va) entre cineastas e críticos,  corroendo os humanos e as instituições, desumanizando-os. Sim,  o “homem é o lobo do homem”. Thomas Hobbes estava certo.

E por cada palavra encantatória de António de Macedo e cada  imagem hipnotizante de fragmentos dos seus filmes, há o desencanto e desalento de sentir que afinal, a “clubite cinéfila” pode arruinar os projetos de um cineasta,  “apenas” o primeiro a ir a Veneza e a Cannes, mas nunca vergar os seus sonhos.

Filmes dentro do filme. Um cineasta (João Monteiro) acolhendo outro cineasta (António de Macedo), com lucidez e paixão, sem nunca recorrer ao “argumentum ad misericordiam”. Forma nobilíssima de o honrar.

Ficha técnica:

Título: Nos interstícios da realidade: o cinema de antónio de macedo
Argumento e realização: João Monteiro
Fotografia: André dinis Carrilho
Com: António de Macedo, Susana Sousa dias, João Salaviza, Alberto Seixas Santos, António-Pedro Vasconcelos, António da Cunha Telles, Jorge Leitão Ramos , Sinde Filipe.
Port, cor, 2016, 100′

Foi o cineasta mais prolífico da geração do Novo Cinema Português. Experimentaria o western spaghetti, a alegoria esotérica, o sobrenatural e a ficção-científica. Sem subsídios estatais, desistiria de filmar nos anos 1990. Quem se lembra de António de Macedo?

“O documentário baseia-se na obra de António de Macedo, o cineasta mais prolífico da geração do “Novo Cinema Português”, movimento que ajudou a fundar através do filme “Domingo à Tarde”. A ousadia estética de filmar “A Promessa” de Bernardo Santareno como um western, juntamente com o seu sucesso junto do público, provocaria uma clivagem irreversível junto dos pares e da crítica. Interessado em explorar as possibilidades tecnológicas do meio cinematográfico e em desenvolver um cinema de cariz fantástico, a sua obra é difícil de classificar no seio do cinema português.
Lutou arduamente contra os cortes que a censura lhe impôs, antes e depois do 25 de Abril, quando a Igreja Católica tentou impedir a estreia de “As Horas de Maria”, esforço que o tornaria no “blasfemo” filme português mais polémico de sempre.
Experimentaria ainda a alegoria esotérica em “O Princípio da Sabedoria”, o sobrenatural em “Os Abismos da Meia-Noite” e a ficção-científica em “Os Emissários de Khalôm”, recebidos sempre com entusiasmo pelo público, mas com desprezo pela crítica.
Desistiria de filmar nos anos 90, após sucessivas recusas de subsídios estatais.
Esta é uma das histórias do cinema português que falta contar.”

In Festival IndieLisboa

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O Festival serviu de pretexto para um reencontro muito afetivo, com a musa inspiradora do primeiro ano do Plano Nacional de Cinema na ESA, Regina Pessoa,  que culminou com a exposição “Do mundo animado ao meu mundo.”

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Conheci o cineasta brasileiro Tião,  cujo filme “Animal político” acabaria por ser premiado com o Prémio Revelação pelo “Corajoso projecto autoral, que parte de uma leitura da realidade brasileira traçando paralelos com o cinema de Miguel Gomes e Stanley Kubrick, o Prémio Revelação do XX Festival de Cinema Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira.”

In http://www.cineclubedafeira.net/festival/

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Apreciei  muito o documentário “António, Lindo António” de Ana Maria Gomes, 2015,  e diverti-me imenso com “a 8944 km de cannes” de Walter Salles, 2007.

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Confesso que ao ver o filme “A Serpente” de Jura Capela, 2016, lembrei-me do livrinho de Robert Bresson “Notas sobre o cinematógrafo” e apercebi-me que concordava com ele: “Nada é mais falso num filme que esse tom natural do teatro (…)”.

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Parabéns Américo Santos e Cineclube da Feira pela qualidade do Festival! E, obrigada, Adelaide, por ser tua convidada! Um Festival é o espaço de aprendizagem,  de partilha e de afetos. Adorei!

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