“E assim se foi a Esperança”, da Vânia Silva (11.º A.V.)

Poster Filme

De tanto que me disse esta curta que indubitavelmente,  até mesmo pelas palavras do próprio realizador, tudo se resume a isto. Colocando-me no papel do protagonista, consigo sentir, a fúria, a angústia mas a mais pura das liberdades. Vou morrer, que importa o resto?
Somos humanos, é da nossa natureza ser egoísta, ou agir consoante as circunstâncias, perante o que sentimos ou perante um pensamento racional e frio. O protagonista age pelo que sente. Ele sente a doença, sente o odor e a mão da morte, ou seja, sente-se livre. Com certeza que me tocou bastante e me prendeu até ao último segundo. Para mim, questões destas sempre me fizeram pensar. Sou livre? O que é a liberdade? Eu tenho medo da morte ou desejo-a?

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Tantas perguntas, suponho que o indivíduo prestes a morrer se sentisse assim. Talvez se sentisse de maneira diferente. A morte não o assusta, a espera sim. Ele não quer esperar, o tempo mata mais que a própria morte. O que é esta coisa maldita de tempo? Apenas precisamos da sua definição para não nos perdermos no mundo, na nossa existência. Ele não quer depender de algo tão maldito, pessoalmente também não quero. Claramente, que sem isto o mundo era a desordem, mas já não o é?
A morte surge em duas semanas como ele confessou ao amigo. No entanto, a esperança foi-se? Esperança de quê? De ser livre? De amar verdadeiramente? Ou apenas de existir?
A meu ver, a morte surge num contexto de esperança, porque sentiria ele medo ou porque perderia ele a esperança se no fim dos fins vai morrer? Ele sem esperar foi livre, pelo maldito tempo ser escasso, ele finalmente foi ele mesmo, finalmente viveu como se não houvesse amanhã (o que não houve); ele entregou-se ao amor que sentia, foi livre de escolher como, onde e com quem morreu. Foi puramente livre. A beleza na demência da morte, que fiasco de liberdade.
Aí surge o carácter “fenomenalmente doente” da curta; aí surge a filosofia de ser humano. Tal como Bukowski dizia ” a impossibilidade de ser humano”. A obra visual sugere que só somos humanos quando estamos a morrer, pelo menos vi-o desta forma. O humano engana, é um fingidor, só se torna verdadeiramente humano quando está para deixar de existir, ou melhor quando existiu mas a sua consciência se evapora, ou quando dá um tiro nos miolos.
“Nunca me senti tão vivo” citou o protagonista, sem dúvida, nunca vi um ser humano tão vivo, tão despreocupado, tão egoísta mas tão altruísta, quem pensaria que uma essência tão demente como a morte trouxesse algo como a liberdade. A liberdade continua única, mesmo sugerindo um contexto tão doentio. Que depressivo é pensar que só sou livre quando estiver morta.

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«E assim se foi a Esperança.», deve ser das poucas coisas que me atrevo a criticar na curta. A esperança não se foi, ela simplesmente nasce noutro contexto a meu ver. Ele teve esperança até ao fim. Ele morreu a presenciar o amor na sua verdadeira e mais pura forma, ele morreu com quem mais amou, fosse o amigo e/ou a filha na sua “presença virtual”. Ele morreu livre; controlou a morte de uma forma simplesmente audaz e até chocante, ele deu as mãos a esta como se nada fosse; fez isto ao decidir em que instante e onde deixaria de respirar. A essência da curta-metragem está toda aqui. A esperança não se foi, a morte é uma amiga, a liberdade surgiu. Estou morto e com isto sou livre.

Vânia Silva, 11.º A.V.

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