Dias do Cinema Português

novembro

 

E se em vez da comemoração do Dia Mundial de Cinema, 5 de novembro, se celebrassem os Dias do Cinema Português?

E foi partindo desta premissa que, na qualidade de coordenadora do PNC ESA, decidi dar a conhecer[1] algumas curtas-metragens dos cineastas João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata.

Este ano , no Festival Curtas de Vila do Conde,  tive a honra de ter uma visita guiada por estes cineastas à exposição “Do Rio das Pérolas ao Ave”, na Solar,  galeria de Arte Cinemática.

2pnc0452pnc0432pnc041

A curta-metragem que teve mais impacto, talvez pela situação-limite retratada pela jovem protagonista -, foi “China, China”. Eis algumas apreciações dos alunos sobre ela:

“Esta curta-metragem lembrou-ne a frase de Einstein: ‘A felicidade não se resume à ausência de problemas, mas sim à capacidade de lidar com eles’. Com efeito, toda a história se centra no drama de uma jovem chamada China, de dezanove anos, que já é mãe de um filho de três e casada. As circunstâncias que envolvem a sua vida são um enorme obstáculo para alguém, em plena juventude, que quer ser feliz .
Na verdade, China e o seu marido não constroem nem vivem uma relação salutar, assente em valores e princípios positivos. Ele, muito mais velho, exerce o poder sobre ela e esta sente ódio por ele. Por sua vez, o filho, influenciado, talvez pelos filmes que vê com o pai, passa o tempo a matar pessoas com a sua pistola de brincar.

chinachina2

Seria de esperar, neste sentido, um desenlace negativo para este trio, mas aquilo que os esperou foi ainda pior. China, antes de ir para o supermercado carrega o seu revólver e coloca-o  na sua carteira. Quando o seu filho chega ao supermercado, vai à carteira da mãe buscar um chupa-chupa, como habitualmente. Vê o reólver, pega nele e dispara contra a mãe, que morre.
O filho não agiu intencionalmente, estava apenas a brincar. Pelo contrário, as ações da mãe foram planeadas (e bem-sucedidas), usando como instrumento da morte o próprio filho, que pegaria na arma, deliberadamente carregada e brincaria. “Kill me” – escrevera ela no espelho, com batom.
Não bastaram uns quantos chupa-chupas, uns saltos na cama, o escorregar pelos corrimões ou outros momentos efémeros de alegria para China (querer) agarrar a vida. China terá optado por um caminho de libertação individual, talvez o único a seus olhos. No entanto, acho que a jovem procurou, por si, resolver o seu problema, mas efetivamente não o resolve, deixando as marcas desse insucesso no futuro comprometido do seu próprio filho. Procura, egoisticamente, a solução para a sua vida, sem compreender que os melhores remédios para os dilemas da nossa existência se encontram na ligação e comunhão com os outros.
Por isso, China não teve ‘capacidade para lidar ‘com os seus problemas.”

Margarida Natal Mendes, 10.º CT1

chinachina4

“Mais um caso de maus tratos, não só pelo marido, como pela vida em geral. (…) Uma criança a ter que cuidar de outra. Cuidava da vida do filho, enquanto cuidava da sua morte.”
Jéssica Esteves, 10.º CLH1

chinachina51

“Até que idade deixamos de ser crianças?
Uns dizem que é aos 18 e outros referem que, ao longo da vida, temo-las dentro de nós”
Sara Pinheiro, 10 CLH1

“Esta jovem quer morrer: ‘kill me’, mas também quer voar, sonhar. Daí a banda sonora, a música, do grupo Pop Dell Arte “Sonhos Pop“:
Não sei o que dizer
Não sei o que fazer
Não sei o que vai ser de mim.
(…)
Ainda tenho um sonho ou dois.”
António Quesada, 10.º CT2

“O lance de escadas. Quando China chega a um lance de escadas e bate os sapatos, um contra o outro, três vezes tal como a personagem principal do Feiticeiro de OZ, quando queria pedir um desejo. Desliza pelas escadas, pelo corrimão, demonstrando uma felicidade nunca antes vista. O seu desejo está feito. Prepara-se para voar.”

“Na minha opinião, esta curta-metragem retrata na perfeição a imigração ilegal e os problemas que muitas jovens passam por engravidarem muito cedo.”
Sara Bessa 10.º CLH1

“A dor dilacera a alma e é inimiga da felicidade.”
Jorge Morais , 10º CT2

“Como será este sentimento de não servirmos para Nada?”
Marcelo Carvalho, 10.ºCT2

“A jovem na mensagem que escreve no espelho pede para a matarem, numa referência à série Anime “Death Note”, um dos protagonistas diz: “Eu posso-te matar, basta pedir-me.”
Diogo Brás, 10ºCT2

“Serão estas razões suficientes para a conduzirem à morte? Não haverá vidas piores?”
José Monteiro, 10 Ct2

“Será que era precisa esta atitude?”
António Ricardo teixeira, 10º CT2

“Esta curta-metragem retrata a covardia, presente ainda na realidade de hoje, ou seja, o medo de algumas pessoas que não estão felizes com a sua vida de mudarem. Apela-nos para não hesitarmos em ser Felizes.”
Margarida Moura, 10º CT2

“O bater dos calcanhares é uma referência ao ‘Feiticeiro de Oz’, como se a levasse para outro lugar, de liberdade.”
Bárbara Mendes, 10º CT2

“Apesar de todos os contratempos (maternidade precoce, casamento com alguém muito mais velho), considero que a morte não é solução.”
Francisca Ferreira, 10ºCLH2

“A premeditação da morte demonstra uma exaustão total de viver.”
Lúcia Magalhães, 10º CLH2


chinachina1peq1

Ficha técnica:

Título: China, China
Realizador: João Pedro Rodrigues & João Rui Guerra da Mata
Argumento: João Rui Guerra da Mata
Atores:Jialiang Chen, Chen Jie, Luís Rafael Chen
Fotografia: Rui Poças
Montagem: Rui Mourão
Som: Nuno Carvalho
Idioma Original: Mandarim, Português
Produtor: João Figueiras, BLACKMARIA, Produção Audiovisual
Portugal, 2007, FIC, 35mm, Cor, 19′

chinachinaposter

__________________

[1] Já no Clube de Cinema, criado por mim em 2011-12 na ESA, os alunos tiveram contacto com a curta-metragem “China, China”, que integra  o dvd 1 “10 curtas metragens portuguesas”, uma seleção Fnac/Indielisboa, 2010.

[2] Este ano foi editado um dvd  intitulado “João Pedro Rodrigues & João Rui Guerra da Mata: As Curtas-Metragens”, pelo Curtas de Vila do Conde em parceria com a Fnac e  reúne todas as obras de curta-metragem realizadas por João Pedro Rodrigues e por João Rui Guerra da Mata, em conjunto ou a solo. Ei-las:

Parabéns! (João Pedro Rodrigues,  1997, 15’)

China, China (João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, 2007, 19’)

Alvorada Vermelha (João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata,  2001, 27’)

O Que Arde Cura (João Rui Guerra da Mata, 2012, 26’)

Manhã de Santo António (João Pedro Rodrigues,  2012, 25’)

O Corpo de Afonso (João Pedro Rodrigues,  2013, 32’)

Mahjong (João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata,  2013, 35’)

Allegoria della Prudenza (João Pedro Rodrigues, 2013, 1’30’’)

Iec Long (João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, PT, 2014, 31’)

____________

Top