Da infância ficcionada [Aniki Bóbó] à infância real

Sésamos recriando cenas do "Aniki Bóbó"

Sésamos recriando cenas do “Aniki Bóbó”

Os alunos do 11.º CLH1 aceitaram o desafio e escreveram[1] sobre as suas infâncias, encontrando similitudes e diferenças com o grupo de miúdos do filme de Manoel de Oliveira.

Eis dois testemunhos de duas jovens que, para além de serem minhas alunas, pertencem também ao grupo de teatro Sésamos[2] que em Julho recriou, com mestria,  algumas das cenas mais emblemáticas de “Aniki Bóbó” na Festa Amarantina:

“Lembro-me que no primeiro dia do infantário provoquei o choro a uma menina. Estava demasiado empolgada com tantas crianças novas e ativando a minha expansividade, desejei criar logo laços. Depois do choro, ficamos amigas.
Uns dias depois, recrutamos mais duas princesinhas da caixa de brinquedos e eu tornei-me a comandante do pequeníssimo batalhão.
Agora que penso nisto, vejo-me um pouco como Eduardinho, um líder seguro e obstinado, orientador de brincadeiras e coordenador de relações internas, o que em parte, me revolta pelo excesso de autoritarismo.
Inventávamos jogos para nos aproximarmos dos rapazes, criávamos canções e coreografias e concursos para decidir quem conseguia atingir o ponto mais alto no baloiço. Pintávamos, ríamos (ríamos muito!) e roubávamos a lenha para construir fortalezas que nos protegessem do crescer. E fazíamos origamis! Montes deles! De todos os bichos do mar, do ar e da terra, de flores e copos… e voltávamos a fazer se a primeira vez corresse mal. Não desistíamos.
Corríamos as calçadas, como os miúdos da Ribeira. Mas as nossas calçadas eram imaginárias porque a sociedade assustou demasiado os nossos pais, e as nossas casas ficavam no reino de Bué-Bué Longe.
A escola era o nosso rio. O nosso banho era o recreio. E não tínhamos medo de mergulhar, nem sequer de molhar as roupas. Batatinhas, Batatinhas!
Agora vimo-nos diariamente, esboçamos um sorriso e desaparecemos na multidão. As opções que a vida nos impôs e a maturação da nossa personalidade afastaram-nos.
Somos apenas carris deste combóio chamado infância, voltando à linha antiga para conservar vivências e tentando escapar à queda da inocência e à velocidade do tempo.
Ana Rita Félix, Nº1, 11ºCLH1 “

Ana Rita Félix (à direita)

Ana Rita Félix (à direita)

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                                                                                                                                                             E os Sésamos (en)cantavam (clicar) pelas ruas de Amarante

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“Apesar de ter frequentado o ensino pré-escolar completo, ao concretizar um exame introspetivo aos primeiros anos da minha infância, reconheço que a génese do meu contacto social com os meus semelhantes só decorreu ao ingressar na escola primária. Sem aviltar a influência que o infantário deteve na formatação do meu caráter, considero que, de uma perspetiva positiva, as minhas relações sociais primárias nasceram no ensino básico.
Recordo-me do primeiro dia, do ambiente acolhedor e do calor ávido que brotava dos olhares inquietantemente curiosos das crianças presentes. Lembro-me do receio típico de quem está prestes a partir em busca do desconhecido e do entusiasmo galvanizante de quem se sente um aventureiro.
Durante os anos que se seguiram as melhores experiências decorreram sempre que me senti integrada no seio da minha turma. Como que naturalmente organizados, todos os intervalos nos encaminhávamos em conjunto, cerca de dezassete rapazes e raparigas, para o campo, onde, durante meia hora de intervalo, o mundo se transformava numa correria desenfreada na demanda da captura dos “ladrões”, tal como em “Aniki Bobó”. Por vezes, dedicávamo-nos à exploração da fauna envolvente, detetando com uma visão acutilante, típica da curiosidade infantil, os caracóis que, alheios à nossa euforia pueril, eram todos reunidos em “habitações” construídas por nós mesmos com folhas e galhos caídos. Como éramos um grupo numeroso, gostávamos de tentar ocupar todos, em simultâneo, um único baloiço, o que provocava represálias por parte das funcionárias, às quais respondíamos dispersando-nos fugazmente entre risos e olhares cúmplices de quem se sente temerário.
Esta inocência e pureza com que a vida fluía num encadeamento natural, aproxima a minha infância da das crianças da década de 40 retratadas em “Aniki Bobó”. No entanto, nos tempos hodiernos, por oposição ao contexto epocal da longa-metragem, a liberdade que se fazia sentir, outrora, nos anos da puerícia tem vindo a ser progressivamente limitada dada a constatação de um clima de insegurança que molda a atualidade.
Revejo a minha personalidade em várias personagens do filme: a intensidade exacerbada com que Eduardinho afirmava a sua personalidade no seio do grupo; a preocupação afetuosa com que Carlitos defendia, nos mais singelos atos, os seus amigos; ou até mesmo no pequeno Batatinhas que suscita a comicidade pela sua propensão a ser um pouco desastrado.
É com nostalgia que relembro esta época da minha vida. Porém, posso afirmar com orgulho que fui feliz pela inconsciência com que fruía da efeméride da infância, quando o “pensar” e o “sentir” eram dois conceitos distintos e jamais interligados, a época em que aprendi a rir genuinamente e em que a única dúvida era escolher a brincadeira do dia seguinte.
Carina Lopes, Nº3, 11ºCLH1″

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Carina Lopes

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Sem Título

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[1] Eis um exemplo. Clicar para ampliar a imagem

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[2] O grupo de teatro “Sésamos” surgiu durante o ano de 2015. A ideia foi corporificada pela criadora e mentora do grupo, Débora Gonçalves.
Deslumbrada pelo filme de Manoel de Oliveira decidiu recriar na festa amarantina o grupo de miúdos que se (des)unem devido à tentação-desejo por uma boneca, as birras entre Carlitos e Eduardinho por causa da belíssima Teresinha, as quedas do Pistarim…

Débora Gonçalves

Débora Gonçalves

O Douro foi substituído pelo Tâmega e as ruelas de Amarante foram os cenários naturais por onde entoaram a cantilena “Aniki-bébé / Aniki-bóbó / Passarinho Tótó / Berimbau, Cavaquinho / Salomão, Sacristão / Tu és Polícia, Tu és Ladrão”.
E os amarantinos enlaçando o passado com o presente, a ficção com a realidade, agradeceram esta viagem tão afetiva pelo filme de Manoel de Oliveira.

Estes jovens – Débora Gonçalves, Dália Cristina, Sandra Pinheiro, Joana Briga, Alex Cosme, Ana Rita Félix, Carina Lopes, Michel Costa, Filipa Gonçalves, Teresa Oliveira, Andreia Silva, Diana Pinto, Ricardo Cabral, Diva Pereira, Eva Soares, Ana Rita Monteiro, Beatriz Sousa – “seguem sempre por bons caminhos”!
E como é bom assistir ao seu desabrochar para o Teatro, para o Cinema e para as mais variadas formas de Arte ou de Vida!

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