História Trágica com Final Feliz, Regina Pessoa

historia_tragica_com_final_feliz

Ficha técnica:

Realização: Regina Pessoa
Personagens: A menina, a comunidade (merceeiro, varredor, velhota, outros vizinhos, pássaros, cães).
Género: Curta-metragem de animação
Produção: Ciclopes filmes +Arte France + Folimage + ONF/NFB
Portugal/França, 2005, 7’25’’

Sinopse:

A história de uma menina diferente que sofre pela indiferença com que a comunidade a trata. Do trágico à felicidade.

Análise fílmica:

Personagem e sua descrição
A protagonista é uma menina que transcende a “normalidade”, é diferente.
Do ponto de vista físico, é frágil, sensível e delicada. Tem uma característica singular, possui um coração que bate “mais rápido e mais alto do que o normal”.
Do ponto de vista psicológico, sente-se confusa, assustada porque crê que nasceu no corpo errado. Trata-se de um corpo em mutação – da pre-adolescência à adolescência – presente na indistinção dos traços que o delineiam, mas também triste porque os habitantes da comunidade rural em que habita rejeitam tudo o que escape à padronização e à rotina.

Espaço e Tempo
Espaço geográfico-social: a menina vive numa aldeia, portanto num ambiente rural. Vislumbram-se dois tipos de isolamento: o geográfico (a aldeia isolada e rodeada pelo ambiente natural, a floresta) e o social (incompreendida pelos outros seres humanos).
O quarto onde a menina se refugia é desprovido de elementos, minimalista, o que parece indiciar que pertence a um estrato social carenciado.
Por um lado, o espaço natural parece infinito ou ilimitado (o uso das perspetivas, nomeadamente nas estradas); por outro, opressor quando, por exemplo, num enquadramento contrapicado, os prédios e as casas parecem sufocar (censurar?) as idiossincrasias da menina.
As coordenadas temporais são marcadas pela rutura e pelas dualidades noite/dia (associadas ao preto/branco), velocidade (fuga catártica da menina na bicicleta) e dinamismo/ lentidão (inércia dos outros, até do cão).
A realizadora utiliza como recurso no domínio da duração a elipse porque há uma supressão ou um hiato temporal aquando do crescimento do corpo da protagonista.

Meio envolvente
. Humano
A comunidade ruralizada onde habita a menina é pequena e nela impera o hábito. A existência destas pessoas submete-se à rotina. Egoístas, procuram apenas viver a sua vida banal: o varredor varre, a idosa passeia o cão, o merceeiro está à porta da mercearia e até os cães insistem reiteradamente em ladrar.
Desta forma, o meio humano é profundamente trivial, preconceituoso e intolerante.

. Natural
Perante a incompreensão da sua diferença ou diferenças que sentia, e munida com a sua bicicleta, a menina que “sonhava ser pássaro” pedalava, fugia. Fugia dos humanos que a rejeitavam e fugia de si própria, dado que se desconhecia.
Gostava do vento porque a acalmava e do pássaro que aparecia no parapeito da janela do seu quarto. Os pássaros parecem ser livres e felizes. Podem voar. Talvez ela desejasse voar, libertar-se daquela comunidade, furtando-se aos preconceitos dos outros. As fugas são o seu momento de catarse.

Conflito e sua resolução
Na curta-metragem, há uma diversidade de conflitos. Um conflito “social”, patente no isolamento da menina face aos restantes membros da comunidade. Talvez, um conflito “familiar”, dado que, mesmo no seu quarto, permanece sozinha, como que abandonada pelos seus progenitores. Um conflito “interior”, na medida em que se desconhece enquanto ser igual aos demais e não aceita, inicialmente, a imagem corporal que possui.
Do ponto de vista moral, há valores que conflituam entre si: intolerância versus tolerância; respeito/desrespeito, egoísmo versus altruísmo, individualismo/coletivismo, igualdade versus diferença.
O branco parece opor-se ao preto, a celeridade à lentidão, o quarto fechado à janela aberta. Na verdade estabelecem entre si um harmonioso contraste que serve para realçar a mensagem da narrativa.
O isolamento é imposto – mercê da censura ou rejeição de que é alvo -, mas também autoimposto.
A sociedade parece ter-se habituado à sua presença. No entanto, o comportamento coletivo configura a tipologia do abandono: é uma “assimilação acrítica”, porquanto a indiferença permanece incólume, o que acarreta a esta menina uma desmesurada angústia.
A resolução é enigmática, tal como o desfecho: “Não se sabe se foi alguém que morreu ou que renasceu.”
Às fugas efémeras de bicicleta, sucede-se a evasão/libertação/catarse final e definitiva: a metamorfose corporal, dado que se torna mais leve, eclodem duas asas, o que lhe permite elevar-se da sua condição humana – num misto de menina-pássaro ou pássaro-menina – ascendendo e desaparecendo no céu.

Ideia, Mensagem e Simbolismo
A curta-metragem tem subjacentes várias interrogações: Por que sou diferente? Será possível conviver com a diferença, a minha e a dos outros? Por que me transformo continuamente? Do ponto de vista psicológico e filosófico, trata-se da questão da identidade ou da busca, do autoconhecimento interior e da receção exterior por parte dos outros. Está o ser humano condenado a reduzir-se às expetativas dos outros? Ou poderá resistir à normalização social?
Com esta curta-metragem, a realizadora, Regina Pessoa, encetou uma crítica feroz à sociedade e aos seus desvalores (egoísmo, indiferença, desrespeito pelo outro). Os outros são o “homem unidimensional”, aprisionados pelas profissões, pelos preconceitos que carregam, pelo comodismo do quotidiano, exercitando o princípio freudiano da realidade.
Mas Regina Pessoa ilustrou, também, primorosamente as mutações biopsicológicas de uma menina que cresce e se torna adolescente. Fase problemática de fronteira entre o ser e o não ser ou entre a infância e a adultez, a adolescência constitui uma etapa de procura incessante de si e de inseguranças no domínio da identidade sexual. A afirmação “Estou no corpo errado. Eu sou um pássaro” manifesta um conflito, muito típico nos adolescentes, evocando a teoria platónica do corpo enquanto cárcere da alma.
O coração (a par do cérebro) é o órgão vital do ser humano. Daí que talvez seja uma forma da menina mostrar que vive de outra maneira e da autora revelar que a personagem ganha “anima”. Talvez haja uma linguagem do “coração” porque esta personagem exprime-se – na quase total ausência de falas durante o filme de animação –, através dele. Este não é o ritmo do coração normal, é o de um coração que tem anseios e sonhos, próprio de alguém que reivindica o direito ao seu “princípio de prazer” (Freud).
A menina-pássaro ou pássaro-menina simboliza, simultaneamente, o quão difícil é o reconhecimento e a aceitação pessoal (da menina singularmente considerada) perante a indiferença e rejeição universal (de todos os anónimos que comungaram desta experiência e de todos os contempladores que acolheram como seu este drama).
O banho, prenúncio da viagem ansiada, equivale metaforicamente ao despojamento; as asas e o voo ao simbolismo da viagem como libertação. Viagem interior (reencontro consigo mesma) e viagem exterior ou geográfica para um outro lugar…real ou imaginado.

Ligação ao Universo da Literatura
A resistência às vicissitudes, a persistência em encontrar o seu “próprio caminho” ou percurso existencial fazem com que esta menina possa proferir a célebre frase do “Cântico Negro”: “Não sei por onde vou, não sei por onde vou…sei que não vou por aí.” (José Régio).
O deparar-se com um corpo que parece não lhe pertencer, a incessante busca da sua identidade remete no final para a “Aparição” do seu (novo) eu psicológico e físico, evocando a obra de Vergílio Ferreira.
Esta curta-metragem pode também ser associada à história de A menina que aprendeu a voar, de Ruth Rocha, pois, certo dia, a personagem principal descobriu que podia voar sem o grande apoio dos adultos.
O sonho e a viagem estão também bem evidentes na Passarola construída pelas personagens Pe. Bartolomeu de Gusmão, Blimunda e Baltasar do romance saramaguiano Memorial do Convento e no excerto “Pelo sonho é que vamos (…) / Chegamos? Não chegamos? /─ Partimos. Vamos. Somos.”, de Sebastião da Gama.

Análise do filme na sua totalidade tendo em conta a noção de animação e o lado formal atribuído pela técnica utilizada
O argumento fílmico é coeso e está muito bem estruturado. A autora recorre a metáforas para narrar a existência da protagonista numa pequena comunidade rural.
Utiliza a gravura, desenho a desenho, joga com a noção de perspetiva, dado que a linha ora assume contornos muito bem definidos, ora surge distorcida remetendo para um universo onírico muito particular. Por outro lado, permite-lhe reforçar o dinamismo, por exemplo o movimento da floresta ou da menina a andar de bicicleta.
A linha é simultaneamente opressora e libertadora. Por exemplo, quando a menina aparece numa cena num enquadramento contrapicado com os prédios ou casas por trás, muito mais altos do que ela, é como se a sufocassem.
O sentimento de rejeição é sempre cerceador dos direitos e liberdades individuais. Neste caso, resta à protagonista a partilha e a compreensão dos animais não humanos, dos pássaros, voadores que se furtam à mesquinhez e à maldade dos humanos.
O contraste preto e branco e a sonoridade acompanham os diversos estados psicológicos das personagens, oscilando entre a angústia e o dinamismo da menina e a inércia e o comodismo da idosa, do vendedor e do varredor.
E se o mundo dos sonhos é a preto e branco, a realidade será tanto mais colorida quanto se persista na luta pela autonomia e conquista pelo direito à diferença e à concretização dos sonhos. É esta passagem, esta mudança ou metamorfose que a menina protagoniza com as suas asas e o seu voo.
E o título desvela-nos que, perante a situação mais trágica, o desfecho poderá ser feliz. A mensagem última desta história é, assim, otimista.

Papel da banda de som
O ritmo da narrativa ou história, das personagens (estados psicológicos), dos ambientes (quarto, floresta, rua) estão em sintonia com a banda de som, criada instrumental e expressamente para esse efeito pelo canadiano Normand Roger.
É notória a cumplicidade entre o argumento fílmico e a banda sonora. Consideramos que há uma harmonia entre ambos.
A curta-metragem inicia-se com o bater ritmado e o som hiperbolizado do coração da protagonista.
Primeiro, insegura ante o barulho ensurdecedor; depois, maravilhada com a sua diferença. Um dom que a eleva, metafórica e literalmente com o voo, dos demais. Afinal, é possível ser livre…

Ligação ao universo da autora
A história parece ser autobiográfica. A autora nasceu num meio rural, numa aldeia perto de Coimbra, não possuía televisão e desenhava nas paredes de cal e nas portas da casa da sua avó, com carvão da fogueira.
Cremos que também ela se sentiria “diferente” por desenhar e pela sensação de total liberdade – tal como as fugas da menina-pássaro na bicicleta –, que tal “brincadeira” lhe provocava. Esta experiência infantil, segundo esta forma de expressão, foi o prenúncio da sua vocação.
Afinal, a animação do “coração” de Regina Pessoa encontrava-se na animação das imagens ou nas imagens animadas concebidas como Arte maior. E Regina Pessoa, tal como a protagonista da sua história, elevando o Cinema de Animação a uma Arte, voou…
Acresce mencionar que na curta-metragem de animação “A noite” (1999) e na mais recente, “Kali, o pequeno Vampiro” (2012), Regina Pessoa regressa às problemáticas dos receios, dos medos, dos fantasmas e da diferença no universo infantil. É um regresso reencontro. Reencontro consigo mesma. É que a obra de arte é criação, libertação e catarse do universo interior da artista.

Top