{"id":448,"date":"2015-10-14T18:44:37","date_gmt":"2015-10-14T18:44:37","guid":{"rendered":"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/?p=448"},"modified":"2016-01-14T18:51:29","modified_gmt":"2016-01-14T18:51:29","slug":"aniki-bobo-manoel-de-oliveira","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/index.php\/2015\/10\/14\/aniki-bobo-manoel-de-oliveira\/","title":{"rendered":"Aniki B\u00f3b\u00f3, Manoel de Oliveira"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Aniki-B\u00f3b\u00f32.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"  wp-image-27 aligncenter\" src=\"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Aniki-B\u00f3b\u00f32-300x169.png\" alt=\"Aniki B\u00f3b\u00f32\" width=\"366\" height=\"206\" srcset=\"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Aniki-B\u00f3b\u00f32-300x169.png 300w, http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Aniki-B\u00f3b\u00f32.png 850w\" sizes=\"(max-width: 366px) 100vw, 366px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ficha t\u00e9cnica:<br \/>\nRealiza\u00e7\u00e3o: Manoel de Oliveira<br \/>\nInt\u00e9rpretes\/Personagens: Nascimento Fernandes (Lojista), Fernanda Matos (Teresinha), Hor\u00e1cio Silva (Carlitos), Ant\u00f3nio Santos (Eduardinho), Ant\u00f3nio Morais Soares (Pistarim), Feliciano David (Pompeu), Manuel de Sousa (Fil\u00f3sofo), Ant\u00f3nio Pereira (Batatinhas), Am\u00e9rico Botelho (Estrelas), Rafael Mota (Rafael), Vital dos Santos (Professor), Manuel de Azevedo (Cantor de Rua), Ant\u00f3nio Palma (Fregu\u00eas), Armando Pedro (Caixeiro), Pinto Rodrigues (Pol\u00edcia).<br \/>\nG\u00e9nero: Fic\u00e7\u00e3o<br \/>\nProdu\u00e7\u00e3o: Ant\u00f3nio Lopes Ribeiro<br \/>\nPortugal, 1942,68\u2019<\/p>\n<p>An\u00e1lise f\u00edlmica:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A narrativa tem como elemento dinamog\u00e9nico um grupo de mi\u00fados, centrando-se a a\u00e7\u00e3o nas personagens Carlitos, Eduardo e Terezinha, esta \u00faltima pretendida por ambos. Esta rela\u00e7\u00e3o triangular ser\u00e1 o alicerce de todo o argumento f\u00edlmico e o m\u00f3bil do conflito amoroso.<br \/>\nDada a natureza d\u00fabia, amb\u00edgua e complexa das personagens, podemos classific\u00e1-las como at\u00edpicas, por exemplo, Carlitos (Hor\u00e1cio Silva) \u00e9 bom e humilde mas comete um roubo para conquistar Terezinha; Eduardinho (Ant\u00f3nio Santos) \u00e9 o l\u00edder dos rapazes, o vil\u00e3o que n\u00e3o se importa de mentir para faltar \u00e0 escola, mas tem o \u201car de malandro\u201d; Terezinha (Fernanda Matos) \u00e9 uma menina com um ar c\u00e2ndido mas sedutora, ora concedendo a sua aten\u00e7\u00e3o a Eduardinho, ora a Carlitos; o professor (Vital dos Santos) \u00e9 austero, impondo uma disciplina r\u00edgida mas tamb\u00e9m dando permiss\u00e3o para que os alunos visitem o Eduardo no hospital; o Lojista (Nascimento Fernandes), dono da \u201cLoja das Tenta\u00e7\u00f5es\u201d, \u00e9 simultaneamente paternal para com os mi\u00fados da rua porque percebe que, ante as agruras das suas exist\u00eancias, as suas brincadeiras humanizam as suas vidas; mas \u00e9 profundamente r\u00edgido, jocoso e, at\u00e9, agressivo para com o seu funcion\u00e1rio, de uma idade muito pr\u00f3xima da dos restantes mi\u00fados.<br \/>\nAs imagens f\u00edlmicas s\u00e3o filmadas em espa\u00e7os abertos e fechados, exteriores e interiores, para al\u00e9m do trabalho realizado em est\u00fadio. A rua, os carris, a zona ribeirinha do Porto\/Gaia, o monte e o c\u00e9u op\u00f5em-se \u00e0 sala de aula e ao interior das casas. Esta dualidade \u00e9 associada, no primeiro caso, \u00e0 liberdade e, no segundo, \u00e0 pris\u00e3o ou opress\u00e3o.<br \/>\nA pr\u00f3pria janela \u00e9 d\u00fabia: entreaberta ou aberta (com o gato no parapeito) simboliza a liberdade; quando fechada, \u00e9 sin\u00f3nimo de clausura.<br \/>\nO espa\u00e7o social deste grupo de mi\u00fados \u00e9 pobre. Vivem numa zona que, apesar da sua beleza natural, \u00e9 habitada por fam\u00edlias carenciadas. Brincam na rua ao \u201cAniki B\u00f3b\u00f3\u201d, nadam no rio, divertem-se a contemplar a passagem dos comboios. S\u00e3o espont\u00e2neos e carregam as virtudes e os defeitos do universo dos adultos.<br \/>\nManoel de Oliveira enfatiza, do ponto de vista temporal, as dicotomias noite\/dia alternando-as de forma c\u00e9lere. A noite \u201cdesperta\u201d os fantasmas, o jogo dos \u201cpol\u00edcias e ladr\u00f5es\u201d, a tem\u00e1tica filos\u00f3fica da morte. Simboliza tamb\u00e9m a transgress\u00e3o aquando do encontro \u201camoroso\u201d, \u00e0s tr\u00eas da manh\u00e3, de Carlitos e Terezinha. Neste contexto, o telhado pode muito bem significar os obst\u00e1culos e os medos que Carlitos tem que ultrapassar para agradar ou conquistar Terezinha.<br \/>\nSe o tempo da escola \u00e9 tempo-pris\u00e3o; o fim do tempo-escola \u00e9 tempo-liberta\u00e7\u00e3o. A m\u00fasica cantada na rua, quando o grupo sai da escola, manifesta e acentua este desejo, e \u00e2nsia de liberdade que percorre o espa\u00e7o, e os tempos cronol\u00f3gico e psicol\u00f3gico das personagens.<br \/>\nDo ponto de vista dos planos, os di\u00e1logos entre planos picados (por exemplo, o inicial mostrando a cidade e o comboio) e planos contrapicados (a Terezinha \u00e0 janela ou a cena de Eduardo a escorregar do telhado) s\u00e3o uma constante. Manoel de Oliveira joga, ainda, iconicamente com as texturas (areia, monte), as sombras (claro, escuro) e o som.<br \/>\nA m\u00fasica tem um papel preponderante na obra cinematogr\u00e1fica. Surge, ami\u00fade, como press\u00e1gio, por exemplo, o apito do comboio que antecede o perigo e a trag\u00e9dia. As vozes sussurrantes, durante o pesadelo, ajudam a intensificar a a\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica. A lengalenga cantilena \u201cAniki B\u00f3b\u00f3\u201dsurge, simultaneamente como p\u00f3lo de uni\u00e3o \u2013 dado que todos brincam. Afinal, s\u00e3o crian\u00e7as mas nenhuma deseja ser ladr\u00e3o, o que indicia a presen\u00e7a da consci\u00eancia moral ou o reconhecimento \u00e9tico do bin\u00f3mio correto\/incorreto. Por outro lado, enquanto uns encarnam o papel de pol\u00edcias, outros ser\u00e3o ladr\u00f5es. Extremos irreconcili\u00e1veis na realidade, mas ultrapassados nesta obra ficcionada.<br \/>\nSegundo Manoel de Oliveira, \u00abN\u00e3o era uma melopeia do meu tempo de mi\u00fado. Eu desconhecia-a. Era uma melopeia que eles usavam e eu aproveitei logo. (&#8230;) Decidi aproveitar como t\u00edtulo &#8220;Aniki-B\u00f3b\u00f3&#8221;. Achei que envolvia um certo mist\u00e9rio. Esse mist\u00e9rio adequava-se aos personagens, \u00e0 riqueza interior dos personagens, e adequava-se \u00e0quela cena da noite, em que eles falavam de fantasmas, de Deus, do Diabo, das Estrelas, etc. (&#8230;) Pu-los a discorrer sobre a noite e sobre as estrelas, sobre o diabo e as tenta\u00e7\u00f5es. (&#8230;) Eram preocupa\u00e7\u00f5es minhas, fantasmas meus, que depois se reflectem ao longo de outros trabalhos meus.\u00bb (Entrevista a Jo\u00e3o B\u00e9nard da Costa, 1989).<br \/>\nFilmado e produzido em pleno Estado Novo, \u00abn\u00e3o esque\u00e7amos que Aniki-Bob\u00f3, embora inspirado no conto Meninos Milion\u00e1rios, do Dr. Rodrigues de Freitas foi imaginado e realizado durante a Guerra, em 1941-1942\u00bb (Manoel de Oliveira), esta obra cinematogr\u00e1fica \u00e9 o retrato da natureza dicot\u00f3mica, hierarquizada e manique\u00edsta (bom e mau, pol\u00edcia e ladr\u00e3o, justo e injusto, verdadeiro e mentiroso, invejoso e altruista, m\u00e3e e filho, professor e aluno) do ser humano.<br \/>\nPara tornarmos intel\u00edgivel as motiva\u00e7\u00f5es intr\u00ednsecas do realizador, concedemos-lhe a palavra:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00ab \u00c9 uma hist\u00f3ria um tanto ing\u00e9nua, mas que encerra muitas das minhas preocupa\u00e7\u00f5es. (&#8230;) A palavra ainda n\u00e3o era, para mim, a revela\u00e7\u00e3o que depois foi. &#8220;Aniki-B\u00f3b\u00f3&#8221; vive muito mais da imagem do que da palavra (&#8230;).<br \/>\n&#8230;todos os meus filmes v\u00e3o parar ao desconhecido, ao que se descobre por detr\u00e1s do desconhecido. Porque a morte \u00e9 uma esp\u00e9cie de cortina preta que nos impede de saber a mais pequena coisa. Para al\u00e9m da morte, de mais nada as pessoas se apercebem. Portanto, isto desperta logo a curiosidade e a aventura de pensar sobre o que estar\u00e1 para o lado de l\u00e1, para al\u00e9m dessa cortina negra.<br \/>\nProcurando contar uma hist\u00f3ria t\u00e3o simples, queria reflectir nas crian\u00e7as os problemas dos adultos, aqueles que est\u00e3o ainda em estado embrion\u00e1rio; p\u00f4r em contraposi\u00e7\u00e3o a no\u00e7\u00e3o do bem o do mal, do \u00f3dio e do amor, da amizade e da ingratid\u00e3o. Queria sugerir o medo da noite e do desconhecido, a atrac\u00e7\u00e3o pela vida que pulsa em cada coisa \u00e0 nossa volta, com for\u00e7a e com convic\u00e7\u00e3o.\u00bb (Entrevista a Jo\u00e3o B\u00e9nard da Costa, 1989).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De forma magistral, Manoel de Oliveira subverte os universos: as crian\u00e7as s\u00e3o adultos em pot\u00eancia, estabelecendo uma rela\u00e7\u00e3o espelhar com o universo \u00e9tico-moral do universo dos adultos. Este mecanismo de proje\u00e7\u00e3o e de transfer\u00eancia, utilizado pelo realizador, possibilita uma rela\u00e7\u00e3o de proximidade e de identifica\u00e7\u00e3o do espetador com a a\u00e7\u00e3o, os medos, as vit\u00f3rias e conquistas destes pequenos her\u00f3is da exist\u00eancia.<br \/>\nE se o ser humano \u00e9, na sua natureza e ess\u00eancia, paradoxal, importa real\u00e7ar que o realizador, resolvendo os problemas e os conflitos das personagens, enaltece os valores positivos do respeito, da amizade, da paz e do altru\u00edsmo. Neste sentido, Aniki B\u00f3b\u00f3 \u00e9 um filme sens\u00edvel, dado que apela \u00e0 educa\u00e7\u00e3o da sensibilidade de todo o ser humano.<br \/>\nComo refere o lojista, \u00abas zangas n\u00e3o valem a pena\u00bb. Ent\u00e3o por que ser\u00e1 que o homem persiste em guerrear-se? Conseguir\u00e1, doravante, aprender a li\u00e7\u00e3o de Manoel de Oliveira?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/pbO79RnzGIE\" width=\"520\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ficha t\u00e9cnica: Realiza\u00e7\u00e3o: Manoel de Oliveira Int\u00e9rpretes\/Personagens: Nascimento Fernandes (Lojista), Fernanda Matos (Teresinha), Hor\u00e1cio Silva (Carlitos), Ant\u00f3nio Santos (Eduardinho), Ant\u00f3nio Morais Soares (Pistarim), Feliciano David (Pompeu), Manuel de Sousa (Fil\u00f3sofo), Ant\u00f3nio Pereira (Batatinhas), Am\u00e9rico Botelho (Estrelas), Rafael Mota (Rafael), Vital dos Santos (Professor), Manuel de Azevedo (Cantor de Rua), Ant\u00f3nio Palma (Fregu\u00eas), Armando Pedro (Caixeiro), [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/448"}],"collection":[{"href":"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=448"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/448\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":451,"href":"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/448\/revisions\/451"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=448"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=448"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=448"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}