{"id":2337,"date":"2017-04-30T11:22:01","date_gmt":"2017-04-30T11:22:01","guid":{"rendered":"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/?p=2337"},"modified":"2017-04-30T11:22:01","modified_gmt":"2017-04-30T11:22:01","slug":"belarmino-e-o-futuro-por-paulo-cunha","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/index.php\/2017\/04\/30\/belarmino-e-o-futuro-por-paulo-cunha\/","title":{"rendered":"Belarmino e o futuro. Por Paulo Cunha"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/215296.1020.A.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-2338 aligncenter\" src=\"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/215296.1020.A-300x241.jpg\" alt=\"215296.1020.A\" width=\"451\" height=\"362\" srcset=\"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/215296.1020.A-300x241.jpg 300w, http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/215296.1020.A.jpg 562w\" sizes=\"(max-width: 451px) 100vw, 451px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Realizado pelo jovem cineasta Fernando Lopes (1935-2012), <em>Belarmino<\/em> estreou no Cinema Avis, em Lisboa, a 18 de Novembro de 1963. Os cartazes publicit\u00e1rios na imprensa da \u00e9poca anunciavam lota\u00e7\u00e3o esgotada para as primeiras sess\u00f5es de estreia e ante-estreia. Infelizmente, o filme n\u00e3o resistiria muito ao fracasso da bilheteira, apenas permanecendo em cartaz nesse cinema durante tr\u00eas semanas. Frustrando todas as expectativas, o filme repetiria o fracasso comercial d\u2019 <em>Os Verdes Anos<\/em>, o filme de Paulo Rocha estreado no ano anterior, e que tamb\u00e9m s\u00f3 permanecera duas semanas em cartaz nos cinemas S\u00e3o Luiz e Alvalade. Conv\u00e9m esclarecer que, por esses anos, um filme em estreia permanecia em m\u00e9dia oito a nove semanas em cartaz em Lisboa, antes de come\u00e7ar a digress\u00e3o pelo pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/f5ba4693629c0ffd71ad1c3781eb739a.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"  wp-image-2256 aligncenter\" src=\"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/f5ba4693629c0ffd71ad1c3781eb739a-300x227.jpg\" alt=\"f5ba4693629c0ffd71ad1c3781eb739a\" width=\"451\" height=\"341\" srcset=\"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/f5ba4693629c0ffd71ad1c3781eb739a-300x227.jpg 300w, http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/f5ba4693629c0ffd71ad1c3781eb739a.jpg 411w\" sizes=\"(max-width: 451px) 100vw, 451px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com o produtor Ant\u00f3nio da Cunha Telles, a estrat\u00e9gia de distribui\u00e7\u00e3o do <em>Belarmino<\/em> pretendia explorar um circuito de exibi\u00e7\u00e3o alternativo que j\u00e1 dera diversas mostras anteriores de dinamismo e vigor entusiasmantes: com um jovem realizador com passado cineclubista (Lopes foi associado do Cine-Clube Imagem), o produtor Ant\u00f3nio da Cunha Telles optou por um lan\u00e7amento do filme junto do circuito cineclubista, potenciando assim o lado autoral e moderno do filme junto de uma audi\u00eancia claramente mais exigente. Infelizmente, os sucessivos casos de persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica por parte da PIDE a diversos cineclubes e dirigentes e associados cineclubistas havia fragilizado o movimento, sobretudo na segunda metade dos anos 50. O movimento fora silenciado e reprimido, sobrevivendo mas perdendo muita da influ\u00eancia social que conquistara entre 1945-55. Simbolicamente, A proibi\u00e7\u00e3o da realiza\u00e7\u00e3o do V Encontro Nacional de Cineclubes em 1959 representou o fim de um per\u00edodo \u00e1ureo do cineclubismo em Portugal, um momento hist\u00f3rico em que v\u00e1rios cineclubes portugueses foram determinantes na forma\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de cin\u00e9filos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Belarmino-084.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"  wp-image-2086 aligncenter\" src=\"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Belarmino-084-300x201.jpg\" alt=\"Belarmino 084\" width=\"451\" height=\"302\" srcset=\"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Belarmino-084-300x201.jpg 300w, http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Belarmino-084-1024x684.jpg 1024w, http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Belarmino-084-450x300.jpg 450w\" sizes=\"(max-width: 451px) 100vw, 451px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estes pensamentos passaram diversas vezes pela minha cabe\u00e7a no passado dia 20 de Janeiro, enquanto me dirigia de carro de Guimar\u00e3es para Amarante, respondendo a uma chamada da Elsa Cerqueira para apresentar o filme <em>Belarmino<\/em> a uma plateia de alunos do ensino secund\u00e1rio. Integrada num conjunto de sess\u00f5es mais vasto do Plano Nacional de Cinema da Escola Secund\u00e1ria de Amarante. A sess\u00e3o estava marcada para o cinema Teixeira de Pascoaes, a casa do Cineclube de Amarante, muito bem decorada com algumas das frases cin\u00e9filas (de <em>Johnny Guitar<\/em> a Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro), diversos cartazes de filmes e algumas preciosidades arqueol\u00f3gicas do tempo da projec\u00e7\u00e3o anal\u00f3gica que a transformam numa m\u00e1gica e misteriosa \u201ccaverna\u201d, que remete inconscientemente para a alegoria plat\u00f3nica, ou \u201cgruta\u201d do cinema, se preferirmos a ar\u00e1bica gruta de Ali Baba das Mil e uma noites de Sherazade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Belarmino-090.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"  wp-image-2094 aligncenter\" src=\"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Belarmino-090-300x201.jpg\" alt=\"Belarmino 090\" width=\"451\" height=\"302\" srcset=\"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Belarmino-090-300x201.jpg 300w, http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Belarmino-090-1024x684.jpg 1024w, http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Belarmino-090-450x300.jpg 450w\" sizes=\"(max-width: 451px) 100vw, 451px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u201ccaverna\u201d\/\u201cgruta\u201d cin\u00e9fila amarantina rapidamente se preencheu com cerca de 200 adolescentes. Estavam ali para ver o anti-her\u00f3i Belarmino atrav\u00e9s dos olhos e da c\u00e2mara de Fernando Lopes, um jovem cineasta acabado de chegar de Londres onde respirara os ventos de mudan\u00e7a do Free Cinema de Lindsay Anderson, Karel Reisz e Tony Richardson. <em>Belarmino<\/em>, o filme, demonstra que Lopes aprendeu bem a li\u00e7\u00e3o de retratar\/elogiar o homem comum, de dar imagem e voz ao marginal e invis\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas <em>Belarmino<\/em> \u00e9 sobretudo um retrato de uma cidade (Lisboa) e de um pa\u00eds (Portugal) amorda\u00e7ados havia j\u00e1 quase quatro d\u00e9cadas. Um filme que come\u00e7a e acaba com dois planos que simbolizam a pris\u00e3o que ent\u00e3o asfixiava os sonhos dos portugueses, como o sonho de Belarmino Fragoso em tornar-se treinador e \u201cfazer campe\u00f5es\u201d. Este filme \u00e9 sobretudo um testemunho amargurado de sonhos frustrados e de oportunidades perdidas: \u201cPodia ter sido um grande pugilista, dos melhores da Europa, talvez at\u00e9 campe\u00e3o dos meios-leves e agora \u00e9 quase um <em>punching ball<\/em>\u201d, diz-nos o narrador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Belarmino-079.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"  wp-image-2083 aligncenter\" src=\"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Belarmino-079-300x201.jpg\" alt=\"Belarmino 079\" width=\"451\" height=\"302\" srcset=\"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Belarmino-079-300x201.jpg 300w, http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Belarmino-079-1024x684.jpg 1024w, http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/Belarmino-079-450x300.jpg 450w\" sizes=\"(max-width: 451px) 100vw, 451px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Belarmino<\/em> \u00e9, simultaneamente, uma li\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria, um documento sublime do Portugal em muta\u00e7\u00e3o social na transi\u00e7\u00e3o do salazarismo para o marcelismo, e uma li\u00e7\u00e3o de cinema, um objecto cinematogr\u00e1fico admir\u00e1vel que exp\u00f5e o fasc\u00ednio da linguagem cinematogr\u00e1fica reinventada pelo cinema moderno. Por tudo isto, \u00e9 emocionante assistir a uma plateia repleta de adolescentes a conhecerem pela primeira vez <em>Belarmino<\/em> e Fernando Lopes, um cineasta que queria mostrar Portugal aos portugueses tentando iludir o trabalho castrador da censura, mostrando os marginais e invis\u00edveis de uma sociedade de brandos costumes que se esqueceu de sonhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Paulo-Cunha.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"  wp-image-2073 aligncenter\" src=\"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Paulo-Cunha-300x207.png\" alt=\"Paulo Cunha\" width=\"451\" height=\"311\" srcset=\"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Paulo-Cunha-300x207.png 300w, http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Paulo-Cunha-1024x705.png 1024w, http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Paulo-Cunha.png 1105w\" sizes=\"(max-width: 451px) 100vw, 451px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sess\u00e3o de Amarante revela, finalmente, todas as possibilidades e potencialidades do Plano Nacional de Cinema. Apesar de v\u00e1rias desconfian\u00e7as iniciais, em Amarante demostra-se m\u00eas a m\u00eas que \u00e9 poss\u00edvel levar a escola ao cinema, criar h\u00e1bitos de cinefilia em sala e investir em literacia cinem\u00e1tica. Aqui n\u00e3o se pretende apenas \u201cmostrar filmes\u201d aos adolescentes, mas proporcionar uma experi\u00eancia cinem\u00e1tica que passa pela ida \u00e0 sala de cinema, pela partilha de experi\u00eancias pessoais numa celebra\u00e7\u00e3o colectiva, pela selec\u00e7\u00e3o de filmes que colocam quest\u00f5es aos espectadores e que os querem deixar a pensar. O cinema enquanto motor da vida, enquanto m\u00e9todo de reflex\u00e3o e enquanto experi\u00eancia social, cultural e art\u00edstica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/bernardino21.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"  wp-image-2075 aligncenter\" src=\"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/bernardino21-226x300.jpg\" alt=\"bernardino2\" width=\"359\" height=\"477\" srcset=\"http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/bernardino21-226x300.jpg 226w, http:\/\/pnc.polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/bernardino21-771x1024.jpg 771w\" sizes=\"(max-width: 359px) 100vw, 359px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No final, s\u00f3 me restou agradecer aos organizadores o incr\u00edvel trabalho desenvolvido em prol do cinema e dos espectadores que podem fruir desta iniciativa. Percebi, in loco, que o Plano Nacional de Cinema em Amarante promove um envolvimento que n\u00e3o se esgota numa mera projec\u00e7\u00e3o de filmes, mas numa experi\u00eancia mais vasta, que antecede e sucede a sess\u00e3o propriamente dita, que dar\u00e1 garantidamente muitos frutos num futuro pr\u00f3ximo. Em Amarante, ao contr\u00e1rio do que prev\u00edamos para o anti-her\u00f3i Belarmino, o futuro cin\u00e9filo avizinha-se muito esperan\u00e7oso.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Paulo Cunha&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Realizado pelo jovem cineasta Fernando Lopes (1935-2012), Belarmino estreou no Cinema Avis, em Lisboa, a 18 de Novembro de 1963. Os cartazes publicit\u00e1rios na imprensa da \u00e9poca anunciavam lota\u00e7\u00e3o esgotada para as primeiras sess\u00f5es de estreia e ante-estreia. 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