As análises da Sofia & Micael (11.º CT4) sobre “Decoding Annie Parker”, Steven Bernstein

Numa parceria com a disciplina de Biologia e Geologia do 11.º ano, o Filocinema exibiu o filme “Decoding Annie Parker” de Steven Bernstein, 2013, para as turmas do Curso de Ciências e Tecnologias (CT1,CT2,CT3,CT4).

O meu agradecimento às professoras Lurdes Monteiro, Dores Pereira, Fernanda Capela, Ana Machado e aos seus alunos pela colaboração.

De forma surpreendente, a Sofia e o Micael do 11º CT4 analisaram o filme, articulando-o com a disciplina. Eis as suas reflexões:

“Ao visualizar o filme Decoding Annie Parker, o que mais me marcou foi a forma profundamente humana como a história é contada. Ver Annie perder sucessivamente pessoas que amava, sem nunca perder por completo a coragem, fez-me perceber o peso real que o cancro tem na vida de alguém. Não é apenas uma doença clínica, é algo que se entranha na rotina, nas relações, no corpo e no pensamento. A sua resiliência não romantiza o sofrimento, mas mostra a força que nasce quando não há outra opção a não ser continuar.

O filme alterou a minha visão sobre a genética de uma forma muito concreta. Até então, via a genética como algo distante, quase teórico, que só aparecia nos manuais de biologia. Mas ao perceber o papel dos genes BRCA1 e BRCA2 na predisposição para certos tipos de cancro, compreendi que a genética é, na verdade, uma ferramenta essencial para compreender riscos reais que podem passar silenciosamente através de gerações. Esta descoberta trouxe-me a noção de que genética não determina o destino, mas fornece o aviso necessário para agir com antecedência. A prevenção deixou de parecer um conceito abstrato e ganhou um sentido muito mais pessoal.

O percurso da Dra. Mary-Claire King também me marcou profundamente. A insistência dela em provar algo que muitos desacreditavam mostrou-me o lado mais humano da ciência: a persistência. Ficou claro que a investigação não avança apenas com tecnologia, mas com convicção, coragem e a consciência de que há vidas reais dependentes dessas descobertas. Isso reforçou a importância de confiar no processo científico e valorizar o trabalho dos investigadores, mesmo quando os resultados ainda não são visíveis.

Outro ponto que o filme sublinha é o impacto do cancro tanto a nível pessoal como interpessoal. Pessoalmente, o cancro transforma a identidade de quem o enfrenta, desde a forma como se olha ao espelho até à forma como se pensa no futuro. Interpessoalmente, altera dinâmicas familiares, cria tensões, aproxima alguns e afasta outros. O filme mostra que quem está doente não carrega apenas o seu próprio medo, carrega também a preocupação de quem o ama. Percebi que o cancro nunca afeta apenas uma pessoa, afeta todo um círculo de relações, muitas vezes de forma silenciosa e profunda.

Por fim, o que permanece depois de ver Decoding Annie Parker é um sentido de respeito e lucidez. Respeito pela força de quem enfrenta uma doença tão devastadora e lucidez sobre o papel que a genética e a ciência têm na prevenção e no diagnóstico precoce. O filme combina humanidade e ciência de uma forma clara e comovente e no fim de tudo, percebi que compreender o cancro não é apenas entender uma doença, mas reconhecer a coragem silenciosa de quem continua a viver apesar dela.”

Micael Teixeira

“Ao ver Decoding Annie Parker, fiquei profundamente marcada pela forma verdadeira e dura como o filme mostra o impacto do cancro. Não é só a doença física, é tudo o que ela leva embora. Percebi que o cancro mexe tanto com o corpo como com a mente, e que muitas pessoas começam a sentir-se menos “elas próprias”, mesmo sem culpa nenhuma. A doença altera a imagem, a rotina, a autoestima, e isso pesa muito mais do que parece.

O que mais me surpreendeu pela negativa foi, sem dúvida, a atitude do marido. Esperava que ele fosse um apoio, alguém que estivesse lá nos piores momentos. Em vez disso, afastou-se cada vez mais. A forma como ele dizia que não conseguia tocar nela, como se a doença fosse algo sujo ou repulsivo, deixou-me indignada. Parecia que, à medida que ela piorava, ele ia desaparecendo emocionalmente. E isso mostrou-me uma realidade dura: o cancro não afeta só o corpo da pessoa doente, afeta também as relações, e às vezes revela quem realmente está disposto a ficar. O filme também mudou muito a forma como eu vejo a genética e o cancro hereditário. Fez-me perceber que muitas famílias carregaram este peso sem saber, e que uma única mutação pode passar de geração em geração. A história da investigadora mostrou-me que a genética é investigação, prevenção, esperança e, muitas vezes, a única forma de salvar vidas .

No fim, fiquei com a sensação de que, por trás de cada caso de cancro, existe uma batalha invisível: feita de medo, coragem, força e, muitas vezes, solidão.”

Sofia Gonçalves

Muito obrigada pelos vossos preciosos contributos, Sofia e Micael!

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