Pas Perdus, Saguenail, 2008

Pas Perdus. Desenho Naisa Barbosa (1)

Desenho de Naisa Barbosa, 10.º AV

O último desafio do ano letivo consistiu em fruir o filme “Pas Perdus” de Saguenail, 2008, no âmbito das disciplinas de Filosofia e Literacia, Comunicação e Pensamento.

Cerca de 175 alunos inspiraram-se no filme para criarem textos em prosa e em poesia, desenhos e ilustrações. E  foram tão criativos que hoje publico, orgulhosa, o maravilhoso desenho da Naisa e o belíssimo texto do Duarte Lopes, do 10.º CT5.

Uma vida de Mala

Ahh… aquela noite. Lembro-me como se fosse ontem. Ou anteontem ou…qualquer outro dia. A verdade é que quando se vive sem objetivos acabamos por nem sequer viver. No fundo, apenas existimos. E eu como mala e com meu estatuto de objeto, não posso ambicionar muita coisa.

Claro já tive os meus sonhos e não eram nada revolucionários: não ambicionava viajar até à lua como Georges Méliès em 1902, nem queria descobrir o significado de “Rosebud”. Eram apenas sonhos como os de qualquer outra mala. Quando ainda era apenas tecido, ambicionava vir um dia a participar em passerelles e ser usada por modelos famosas. Mas isso não era algo que dependesse de mim, mas de quem me iria costurar e dar forma.

Vocês humanos, são privilegiados nesse aspeto, e nem reparam muito nisso. São dotados da capacidade de pensar, criar e desenvolver, e na maioria das vezes não utilizam essa virtude. Não são inteiramente dependentes da forma que alguém vos dá. Aliás, podem desenvolver a vossa própria forma. Bem vistas as coisas, as minhas ambições enquanto mala apenas derivavam do facto de os humanos atribuírem valores a determinados conjuntos de coisas.

Por isso digo e repito que são privilegiados porque podem adaptar-se. Eu não. Com que tipo de demanda extravagante pode sonhar uma mala? Tenho uma função predefinida e a menos que seja posse de algum Macgyver, nunca irei além disso.

E é precisamente esse valor dos objetos que nos leva àquela noite. Nunca a esqueci, pois por muito que já tivesse sido usada para transportar os mais diversos materiais, nunca até aquela altura tinha carregado algo tão valioso.

Eu estava cheia, cheiinha de conjuntos de papéis devidamente organizados. Daqueles que dizem expandir as oportunidades, dar um novo objetivo à vida, e até ser a chave para a liberdade.

Paradoxalmente, eu não representava nem a liberdade nem as oportunidades, nem sequer algo de bom para a mulher daquela noite. Eu tinha-lhe sido destinada, como é vulgar em transações de grande valor. Ela sabia o que eu continha, mas duvido que tivesse real noção do seu potencial, senão não me tentaria despachar. Ainda assim, ela reconhecia que era valioso, e isso deixava-a muito cautelosa, como quem esconde um Gregor Samsa num quarto. As mãos dela suavam, e muito, enquanto ela vagueava por aquela cidade.

A cidade em si também era estranha. Parecia-se com uma mistura de muitas outras. Se por um lado, tinha grandes arcadas e cafés povoados, por outro também tinha ruelas tenebrosas e hotéis repletos de gente de má fama. Para além de tudo isto, era também uma cidade costeira, pois lembro-me de ver o mar. Claro que esta descrição poderá corresponder a uma grande metrópole, onde é sempre visível à divisão e hierarquia social. Mas aquela cidade era, como dizer… peculiar.

Devo dizer que a percorri toda naquela noite. E embora alguns especulem que a mulher que me carregava era perseguida, existe também quem diga que ela estava a perseguir. Eu, enquanto objeto, não consigo ler mentes (e presumo que, mesmo que fosse um ser humano, também não o conseguiria), mas penso que foi um pouco de ambos.

A função da mulher era apenas entregar-me, mas como disse, o meu valor pressionava-a. Para além disso eu tenho um porte demasiado grande (existe até quem me chame “trambolho”) pelo que era difícil passar despercebida. Inicialmente, ela almejava encontrar um homem, que se iria apresentar de chapéu e capa, entregar-me e seguir com a sua vida. Isso só por si levanta algumas questões. Se Kant estivesse entre nós ficaria horrorizado com tamanha afronta à sua filosofia humanista, já que a mulher se estava a utilizar meramente como um meio para um fim que era a entrega.

O local combinado para a entrega foi o café. Por ser um sítio público e por consequência, movimentado, seria o lugar menos suspeito. Isso de facto leva-me a refletir sobre o porquê de se buscar sempre o que não se conhece.

Uma vez chegada ao café, ela verificou se ele estava lá dentro. E estava. No entanto, ele levantou-se e saiu disparado. Foi uma cena estranha, mas podia ser algum tipo de mensagem: “A troca não deve ser feita aqui. Segue-me”. Mesmo que esta não fosse a ideia, acho que foi assim que a mulher a entendeu, pois decidiu ir atrás dele.

Seguiu-o até uma zona pouco movimentada, perto das arcadas. Mas foi aqui que todo o plano foi por água abaixo porque aquilo nada mais era que uma emboscada. Pensando bem, até faz sentido: ele, como destinatário da mala, também sabia o que ela continha. E a ambição às vezes cega as pessoas, e este foi o caso. Ele pensou que se a mulher tinha aquele carregamento, poderia saber de onde ele veio, e assim ele teria acesso a muito mais, e não apenas a uma mala cheia dele.

Quando ele avançou para a mulher, esta usou-me para lhe bater. Não é decerto um meio muito ortodoxo, mas o que é certo é que funcionou. Devido ao meu tamanho (e ao próprio peso de toda aquela carga), ele caiu ao chão, batendo com a cabeça e ficando inconsciente. Dir-se-ia que o seu desmaio foi até demasiado conveniente, como se nós estivéssemos numa história. Mas no fim de contas, as coincidências acontecem…

A verdade é que a mulher pareceu ainda mais perdida, e de facto a situação não era para menos. Acredito que lhe tenha passado todo o tipo de questões pela cabeça: O que faria comigo agora? Como tinha deixado que as coisas chegassem àquele ponto? E, sobretudo, o que é que ela estava a fazer, qual era, naquele momento, o sentido da sua existência?

Esta última pergunta é de todas a mais importante. Às vezes precisamos de estar em situações extremas para questionarmos aquilo que estamos a fazer e essencialmente o porquê de o estarmos a fazer. Estaremos a agir segundo os nossos valores? Estamos a fazer o que fazemos por decisão própria ou porque estamos a obedecer sem pensar na outra pessoa? E se a decisão é nossa, o que a motiva? E é correta?

Estas questões vão nos levando a reflexões internas que são cruciais para nos entendermos a nós próprios. Infelizmente, tal como aconteceu com a mulher que me transportava, essas questões surgem, na maioria das vezes, demasiado tarde.

A mulher começou-se a afastar, murmurando coisas em francês (aliás não era a primeira vez que o fazia) e visivelmente assustada. Isso fez com que se tornasse ainda mais cuidadosa. Lembro-me de um mendigo que apareceu um pouco mais à frente. A sua presença foi o suficiente para determinar a saída da mulher daquelas arcadas.

Foi-se dirigindo a um hotel, mas o facto de não conhecer bem a cidade (e de ter sido levada para uma zona ainda mais retirada) fê-la perder bastante tempo às voltas. Para além disso, como referi anteriormente, eu não era nada prática e condicionava em grande escala a sua liberdade, quer física, quer mental.

Quando finalmente o encontrou, não entrou logo. Talvez desconfiasse de alguma coisa e preferiu observar. Fosse qual fosse o motivo, foi provavelmente a decisão mais acertada, uma vez que o tempo que ela andou perdida foi o suficiente para o homem da capa se recuperar e, como conhecedor da cidade e pessoa astuta, dirigiu-se logo para o referido hotel. Ela viu-o sair de lá e ficou ainda mais receosa. Tinha passado de procuradora a procurada. Permaneceu escondida atrás de uma estátua. Mas aquela zona era “território” de prostitutas pelo que qualquer mulher que lá estivesse parada iria ser vista como tal. E foi precisamente o que aconteceu. Um homem viu-a e abordou-a para saber o “preço”.

Aparte o facto de o homem ser um perfeito ignorante por achar que alguma mulher com uma mala do meu tamanho e escondida atrás de uma estátua estaria disposta a fazer o serviço que ele procurava, o comportamento dele leva-me a questionar sobre a culpa. O comportamento dele de procurar uma mulher para usar como objeto sexual é sem dúvida repugnante e antiético. Contudo, ele fá-lo por saber que existem mulheres que estão dispostas a ser tratadas assim. Por isso, deixo a pergunta, será justo atribuir a culpa apenas a uma das partes?

Independentemente disso, o comentário do homem foi, à semelhança do mendigo, suficiente para fazer a mulher fugir dali. Mas o homem da capa avistou-a devido à fuga barulhenta e, tal como numa relação de predador-presa, foi atrás da dela.

Ela, eventualmente, viu-o e começou a fugir ainda mais depressa. Foi dar a umas ruelas obscuras e, dado que estava sem opções de fuga, mergulhou nelas.

A dada altura, e já cansada de fugir com um grande fardo valioso, ela tentou esconder-se numa esquina. Teria sido bem-sucedida, não fosse o facto de uma mulher à janela a ter visto e alertado as autoridades, com medo que ela fosse uma ladra.

Isso acaba por provar que atualmente a sociedade é extremamente boa a tomar decisões precipitadas. Tornaram-se seres intolerantes, invejosos e egoístas. Já imaginaram o que seria se eu e as outras malas também fossemos assim?

O alarido provocado pela mulher foi, mais uma vez, suficiente para atrair a atenção do homem e denunciar a mulher que me transportava (honestamente, considero que o facto de a mulher ter sido sempre denunciada se estava a tornar algo irritante).

E, à semelhança das vezes anteriores, a mulher fugiu. No entanto, a pressão que recaía sobre ela era cada vez maior. Ela estava cansada, com medo, em fuga e com uma carga pesada e valiosa consigo, que era sem dúvida a origem da maioria dos problemas. Isso consumiu a sua paciência.

Acabou por ir dar a umas escadas perto de uma estrada. O homem estava mesmo atrás.  Desesperada, fez-se à estrada sem atenção quase sendo colhida por um táxi. O choque de “quase-embate” fê-la largar-me. E foi aqui que ela desistiu de mim.

Talvez fosse o medo, o desespero ou até o instinto. O que é certo é que ela me deixou ali, abandonada.

E claro que o homem não se demorou e me agarrou logo. Tentou persegui-la, mas o cansaço acumulado, o súbito aparecimento da policia (provavelmente devido ao alerta da senhora à janela) e o meu peso fizeram-no perder a mulher de vista.

E assim nunca mais a voltei a ver.

Não faço ideia do que lhe aconteceu. Será que ela decidiu seguir outra vida, respeitando-se a si mesma? Aliás que tipo de situação a levou àquela vida? Provavelmente são questões às quais só obteríamos resposta se lhe perguntássemos diretamente.

Já o homem ficou com o meu conteúdo, valioso, capaz de tudo o que eu disse anteriormente. De facto, é um paradoxo que ele tenha perseguido alguém para encontrar essa suposta “chave para a liberdade”.

Mas sem sombra de dúvidas, o mais curioso de tudo isto são as interpretações das pessoas. Sempre que conto esta história, vejo pessoas a imaginar que eu continha dinheiro no meu interior. Mas estão completamente erradas.

Eu sempre disse que o meu conteúdo era algo que poderia abrir horizontes, ser a chave para um futuro melhor, capaz de libertar e desenvolver mentes. E o dinheiro quase nunca o faz. Ele cega as pessoas, fá-las lutar por ele, condicionando-as. Aliás, pode-se dizer que as elas se tornam escravas de dinheiro.

Dito isto, é fácil entender que o que eu continha naquela noite não podia ser outra coisa senão Livros.”

Fotograma cedido pelo realizador

Fotograma cedido pelo realizador

Ficha técnica:

Realização: Saguenail
Argumento e montagem: Saguenail
Vozes: Luís Miguel Cintra, Rogério Boane, Isabel Alves Costa, Inês Lua, Leonor Keil, Sérgio Marques, João Paulo Costa, Alexandre Sá, Daniel Pinto, Amarante Abramovic, Corbe, Regina Guimarães.
Com: Leonor Keil, Sérgio Marques, Rogério Boane, Ezequiel Tristão, Jaz, João Pedro Ferraz, Luís Jordão, Maria do Rosário Barbedo, Catarina Mesquita, Eduardo Oliveira, Inês Matos, José Roseira, Regina Guimarães, José Pedro Coelho, Absinte Abramovic, Ana Luísa Sancho, Alexandra França, Ângelo Oliveira, António Fidalgo, António Lago, Carolina Losa, Cátia Fernandes, Cláudia Teixeira, Eva Ângelo, Flavie Paula, Francisco Simões, Gabriela Milhazes, Helena Nunes, Ilda Milhazes, João Paulo, Joana Queirós, Laila Dambo, Mafalda Trindade, Manuela Ferreira, Márcia Garcia, Marlène Ribeiro, Patrícia Costa, Rita Cantante, Sara Mesquita, Sara Ribeiro, Solange Sá, Susana Oliveira.
Assistente de Realização: Amarante Abramovic
Assistente de Plateau; Absinte Abramovic
Assistentes de Imagem: Jorge Quintela, Samuel Barbosa
Assistentes de Produção: Regina Guimarães, Sérgio Marques, Catarina Falcão
Canção escrita por Regina Guimarães
Canção cantada por Ana Deus
Saxofone: José Pedro Coelho
Ficção, Hélastre, Port., 2008,36’48’

Sinopse:

Não basta ver, é preciso interpretar o que se vê. Os PAS PERDUS de uma mulher que transporta uma mala prestam-se a múltiplas hipóteses – o espectador construirá uma história convocando toda a sua memória cinematográfica.
In Helastre

 

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